Queria fazer poesia de imagens. Um soneto. Um soneto de céu azul e sol risonho.
Queria nessas linhas, paralelas ao Horizonte, escrever com tinta da cor da noite. Com direito aos respingos de estrelas.
Nesse soneto concretíssimo eu iria pôr crianças brincando de roda. Iria pôr a música que as crianças cantam nessa roda. Ritmo e melodia dessa canção. E meu poeminha iria girar, pulando...
Agora fiquei indeciso. Será que eu desenharia entre-linhas o frescor ardente de uma praia ou a quente presença fria das motanhas? Não sei.
Mas é certo que iria colocar cor-de-rosas doses generosas de carinho. E aquelas crianças da roda parariam de girar para se abraçarem e dizer o quanto gostavam uma para outras. Então elas agarrariam as linhas das minhas letras e as enrolariam de tal modo a virarem flores.
As criancinhas plantam as flores. As flores crescem, crescem, se multiplicam. Viram campos de girassóis verdes, azuis, amarelos, vermelhos...
- Ora, vão colher os girassóis!
Dos caules, oba! Tenho mais linha. Dessa vez escreverei em verde.
Continuo a escrever...hm, deixa eu ver...
Já sei. Crepúsculos violetas! Eu enxeria o mundo de crepúsculos violetas. E também de auroras cheias de luz vermelha. O sol daria um espetáculo todos os dias, arreganhando-se em um delicioso riso.
Qual nada! Uma criança malvada chega e destrói tudo. Tudinho.
Rasga as imagens e joga seus restos no vento. E tudo voooooooa pra beeeeem loooooonge.
Por :: Giancarlo Zeni | domingo, abril 24, 2005 | ::
À medida que o limite de minha vida na terra se aproxima, meu espírito volta ao
início, a meus pais, ao irmão e à irmã (que eu não conheci porque ela morreu
antes de nascer), à paróquia de Wadowice, onde fui batizado, a esta cidade de
meu amor, a meus contemporâneos, colegas do primário, do colégio, da
universidade até o tempo da ocupação quando eu trabalhava como operário e,
depois, à paróquia de Niegowice, a de Saint-Florian na Cracóvia, à pastoral
universitária, ao lugar.... a vários lugares ... na Cracóvia e em Roma ... às
pessoas que de modo especial me foram confiadas pelo Senhor. A todos eu
digo uma única coisa: 'Deus vos recompense', 'In manus Tuas, Domine, commendo
spiritum meum.'
Por :: Giancarlo Zeni | terça-feira, abril 19, 2005 | ::
Esses moços [Luficínio Rodrigues]
Cantada por Joana, Francisco Alves, Fábio Jr., etc.
Esses moços
Pobres moços
Ah, se soubessem o que eu sei
Não amavam, não passavam
Aquilo que eu já passei
Por meus olhos - por meus sonhos
Por meu sangue - tudo, enfim
É que eu peço - a esses moços
Que acreditem em mim
Que eles julgam que a um lindo futuro
Só o amor nesta vida conduz
Saibam que deixam o céu por ser escuro
E vão ao inferno à procura de luz
Eu também tive nos meus belos dias
Essa mania e muito me custou
Pois só as mágoas que trago hoje em dia
Estas rugas que o amor me deixou
Por :: Giancarlo Zeni | sábado, abril 16, 2005 | ::
Bandolins [Oswaldo Montenegro]
Como fosse um par que nessa valsa triste se desenvolvesse ao som dos bandolins e como não
E por que não dizer que o mundo respirava mais se ela apertava assim seu colo
e como se não fosse um tempo
em que já fosse impróprio se dançar assim
ela teimou e enfrentou o mundo se rodopiando ao som dos bandolins
Como fosse um lar seu corpo a valsa triste iluminava e a noite caminhava assim
e como um par o vento e a madrugada iluminavam a fada do meu botequim
valsando como valsa uma criança que entra na roda a noite tá no fim,
e ela valsando só na madrugada
se julgando amada ao som dos bandolins
Côsa linda no más, indiada. É ou não é?
Por :: Giancarlo Zeni | domingo, abril 10, 2005 | ::
Futuros passados [G. Zeni]
Já colheram os grãos
e os campos agora jazem nus
Que há-de dizer a mão
quando revelados os ossos à luz?
Carniças d'homens sobrevoam urubus
trigais mortos já sem pão
Ai! que dor me oferece a visão
Desertos qu'às profecias fazem jus
Pudera voltar anos atrás
em idos em que o tempo não se ia
quisera atacar mordaz
O chiru que cuida o dia
e lhe matasse bomba de gás
logo coisa nada mais seria
Por :: Giancarlo Zeni | sábado, abril 09, 2005 | ::
Tenho lido, avidamente, a triologia O Tempo e o Vento do genial Erico Veríssimo. Estou para começar o último volume, Arquipélago III.
Ao mesmo tempo em que me regozijo na leitura maravilhosa, na literatura reflexiva do (quase...)caudilho de Cruz Alta, a tristeza vai me golpeando conforme me aproximo do final.
Não me foi dado escolher. Se tivesse sido, com toda a certeza teria escolhido aquela vida no Rio Grande d'entre 1830 e 1923 - qualquer espaço nesse meio seria infinitamente mais grato que o estado em que viv(emos)(o) hoje.
As máquinas, a tecnologia, a comodidade e a cultura de massas me/nos amoleceram.
Não há mais revolução. Não temos mais vergonha na cara. Se aceita tudo, resmungando, mas se aceita.
Só se usa bombacha em CTG.
A tábua de valores foi quebrada ao meio.
Os campos se dividiram. As famílias se esparramaram.
Não há mais o cheiro de picumã nas cozinhas das estâncias,
porque nem estâncias há.
E hoje no Rio Grande impera o descaso.
As memórias vivem gaudereando pelo pampa, pois não encontram mais lugar na cabeça dos gaúchos.
Com o perdão do desabafo nativista,
o maragato Giancarlo, que nem nome decente tem (antes fosse Bento ou Hortêncio)
Por :: Giancarlo Zeni | sexta-feira, abril 08, 2005 | ::