Por :: Giancarlo Zeni | sexta-feira, junho 24, 2005 | ::
Escorada no mirante observava a beleza instigante do crepúsculo. Os pensamentos percorriam sua mente em uma velocidade vertigenosa. Os anos passados, os anos vindouros, a ínfima fração de realidade do presente - tudo se confundia. Cecília era apenas essa fração milionésima de segundo que separava os fatos. Toda essa complicação e simultânea simplicidade da existência só poderia ser malvadeza de Alguém. Mas sua crença nesse Alguém não era forte o suficiente para chancelar a própria tese. Lá longe o céu mandava sinais: as nuvens negras que se alinhavam no horizonte eram frenéticamente riscadas por relâmpagos. Uma certa opressão vinha daquele quadrante, e o ar se tornava mais pesado. Línguas de fogo lambiam o céu numa carícia póstuma e moribunda - o sol agonizava por detrás dos montes... Da cozinha, os agradáveis perfumes de chás tropicais inundavam o sentimento de verão que pairava no ar, e causavam até certa náusea. E as nuvens continuavam a oprimir. A posição que tomara na vida era muito clara em sua cabeça. Há pessoas que gostam de protagonizar; outras, de figurar; outras ainda, de dirigir. Ela gostava de observar. Da última fileira, ao lado esquerdo perto da porta. Essa atitude contemplativa foram suas leituras e conclusões filosóficas que, num curso natural, desenharam em seu modus vivendi. Mas ela gostava que fosse assim. Era o caminho pelo qual sua sede de conhecimento a conduzia. E conhecimento não traz felicidade, não senhor... Cecília aprendera, nesse tempo todo, a dividir seu espaço com a melancolia e a tristeza. Eram companheiras inseparáveis, embora sempre discretas e delicadas. Boas condutoras, ambas - nos caminhos da filosofia, da reflexão, da arte... A náusea e a opressão a desagradavam. Embolavam-se ao grande novelo de insatisfação que crescia lá dentro. Já era insuportável. Pressão interna não dá! Repensou o ato por umas duas ou três vezes. Mediu distâncias. Fez cálculos mentais (gostava de Física). Aumentou o volume do cd player, que cuspia uma ária heróica. Tirou sapatos. Meias. Calcinha. Sutiã (sobrou só o vestido). Soltou os cabelos. Atravessou uma perna. Atravessou outra. E foi. Sem olhar para baixo. Duma vez só. Foi.
Por :: Giancarlo Zeni | domingo, junho 12, 2005 | ::
Héllen, Lygia, Marcela, Patrícia e Thalita, obrigado por terem entrado na minha vida :-)
Essa é pra vocês:
Protège-Moi [Placebo]
C'est le malaise du moment
L'épidémie qui s'étend
La fête est finie on descend
Les pensées qui glacent la raison
Paupières baissées, visage gris
Surgissent les fantômes de notre lit
On ouvre le loquet de la grille
Du taudit qu'on appelle maison
Protect me from what I want
Protect me from what I want
Protect me from what I want
Protect me
Protect me
Protège-moi, protège-moi {x4}
Sommes nous les jouets du destin
Souviens toi des moments divins
Planants, éclatés au matin
Et maintenant nous sommes tout seul
Perdus les rêves de s'aimer
Le temps où on avait rien fait
Il nous reste toute une vie pour pleurer
Et maintenant nous sommes tout seul
Protect me from what I want
Protect me from what I want
Protect me from what I want
Protect me
Protect me
Protect me from what I want (Protège-moi, protège-moi)
Protect me from what I want (Protège-moi, protège-moi)
Protect me from what I want (Protège-moi, protège-moi)
Protect meProtect me
Protège-moi, protège-moi {x2}
Protect me from what I want
Protect me from what I want
Protect me from what I want
Protect meProtect me{x3}
Protect meProtect me, protège-moi
Por :: Giancarlo Zeni | sábado, junho 11, 2005 | ::
Recordatevi di me
Recordem-se, meus campos planos, recodem-se de mim. Eu sei que estive longe de vocês, que estive por tanto tempo exilado. E continuo. Mas imploro de joelhos que não me apaguem de seu passado. Não apaguem os brinquedos de roda e cantorias, não apaguem as lendas e fogueiras, não apaguem as festanças e famílias reunidas. Não apaguem a criança que fui.
Peço, caros campos, que guardem bem o que deixei aí. Que guardem bem a casa, o quarto, o meu berço, os livros, os quadros, as fotos. Os bolos. Os peões da fazenda que eu chamava pra pegar as marmitas com uma buzina. Os sonhos. Os sonhos. Os sonhos. O céu azul. A mãe-menina. Os sonhos. O pai. Os sonhos. Conserva, linda fazenda, aquilo que hoje já não temos. Aquilo tudo que ficou aí.
Não deixem, campos planos e eternos horizontes, que minhas lembranças se percam. Não permitam que as famílias se esparramem e que as terras se dividam. Não extraviem minhas recordações. Não extraviem quem eu fui e quem eu sou. Pois um dia ainda vou buscar.
Por vocês ainda vivo.
Por :: Giancarlo Zeni | sexta-feira, junho 10, 2005 | ::
O fundamental é respeitar as diferenças, blá blá blá". Aposto que você já ouviu essa manjadíssima conversa de professor. Que além de manjada, é mentira. Que? Não é mentira? Ah, não? Ha ha ha - faz me rir, leitor!
Está claro que nos nossos dias não existem diferenças, sequer nuances. Num tempo em que pessoas vivem para coisas, e que o Mundo vem de fora pra dentro, todos têm os mesmos objetivos e almejam as mesmas coisas. Todos querem ser ricos e ter Nike-Shox. Todos querem ir ao shopping no sábado. Todos querem uma camiseta da Cavalera. Afinal, quem está preocupado com o sentido da vida ou qualquer coisa assim? Não! Vamos consumir...!
Em nossos dias é feio ser educado. É feio ser altruísta. É feio estender a mão. É feio, tudo é feio. A não ser comprar, está claro. Comprar é a síntese dos dons de Deus (que se chama Google, todos sabemos!). Consumir é bom, e Hollywood quer o meu bem estar, é óbvio! Quem está preocupado com sua alma? Ha ha ha! Crenças do século passado.
O século XXI é o século hightech, darlin'. Cai fora dessa de filosofia! Salve-se enquanto é tempo. Pensar não leva ninguém a lugar algum! O que nos conduz, à grande humanidade, é o supremo serviço ao Santo Celular! Cultuemos às câmeras digitais! Prestemos adoração e idolatria aos ícones maiores, Laptop e Caixa Eletrônico! O mundo é de plástico e silício.
Por :: Giancarlo Zeni | terça-feira, junho 07, 2005 | ::
As pessoas são estranhíssimas, para não mencionar loucas e doidas completas. Já notaram como as babacas adoram se enxer de cobranças e impressões às quais devemos corresponder fielmente? Isso provém de uma necessidade inerente à besta humana de sentir em si qualquer importância e autoridade. É essa necessidade idiota que interfere tanto nas relações interpessoais, tornando-as enferrujadas e distorcidas. Se ninguém quisesse meter a colher na minha e na sua vida, seríamos bem mais felizes, não é mesmo? É ridículo. Esse é o verdadeiro ridículo: quando querem interferir em nossas vidas sem qualquer necessidade ou convite.
A coisa que mais detesto é que me digam o que fazer, subestimando minha capacidade de ser pensante. Se você já fez isso alguma vez, já me disse o que fazer, já tentou mandar em mim - tenha certeza: eu te odeio.
Quem inventou sobre o sujeito autônomo? Ha ha ha! É tudo mentira. Decapitem-no. É o que merece. A moral em nossos dias - e nossos dias se arrastam desde quando adquirimos uma conciência até os nowadays - inexiste; é uma falsa moral, que faz cada qual se ocupar do alheio em vez de si. Se cada qual procurasse consertar as suas falhas antes de julgar as do vizinho, garanto que seríamos bem mais felizes.
Mas felicidade...quem a quer?
A julgar-se pelo mundo que temos, NINGUÉM.
Por :: Giancarlo Zeni | sábado, junho 04, 2005 | ::