Quantos anos naqueles dois cigarros? Quantos anos foram-se pela pia, junto às cinzas, escorrendo pelo espelho que me refletia? O cenho franzido pelo azedume de amargura verdadeira fazia a pouca idade cair por terra e espatifar-se em milhares de caquinhos de desilusões. Nesses dias em que você se pergunta se isso é vida ou é sonho, tudo soa muito surreal. Tudo soa muito apático, desconexo. Falta um superbonder ou durepoxi algures, pra fixar bem as coisas em seu devido lugar. Manias de velho: tudo no lugar.
Dizem que você sabe que envelheceu quando olha no espelho, barbeando-se ou fumando, e se percebe - de repente - parecido com seu pai. Para qualquer um, pareceria absurdo dizer que envelheci. Mas quem me viu ontem e me viu hoje poderá até contar cabelos brancos antes inexistentes. Velho, chego até a achar graça, um certo deboche, nessa adstringência dos fatos - que chega a repuxar no fundo da língua, como se fosse uma banana verde que me obrigassem a comer, sem poder cuspir. Mas paro, olho, e rio. Simplesmente rio de toda essa merda. A merda nem é minha afinal. Mas eu sou velho, sou agora um velho que acha que toda a merda do mundo tem a ver comigo.
Dou aquele sorriso torto, jocoso. Imprimo no espelho filho-da-puta um olhar de escárnio. Na mão que segura o cigarro aparece, de repente, um osso que nunca esteve ali. Minhas mãos emagrecem, murcham, ficam quadradas, senilmente manchadas. As buchechas caem, ainda sorrindo. A pele do rosto fica quebradiça, meio árida. Um sulco horrendo se desenha no pescoço. A pele firma escorre pelo cansaço. Um velho.
A vida não é linda, não é um filme de Audrey Hepburn. Ela é amarga, chata, carrasca, incompreensiva, tirana, filha da puta, quenga velha, monstra nojenta que se revela em descobertas pavorosas que nunca deveria ter tido. Mas é, também, doce como o beijo da namorada, afável como um cafuné, suave como uma brisa na praia de Copacabana numa terça-feira à tarde, ardente como uma trepada colossal, assim meio classuda-e-recalcada, enrustida, mas que se solta pra ver o sol se pôr ou nascer a cada vez que damos amor e perdão.
Rejuvenesci.
Por :: Giancarlo Zeni | quinta-feira, abril 27, 2006 | ::